1. Introdução
A
previsibilidade numérica da atmosfera de forma determinística,
baseada em modelos dinâmicos, tem sido amplamente discutida
desde que Lorenz (1963, 1965, 1969) observou que a solução
de sistemas de equações semelhantes às que governam os movimentos
atmosféricos apresentam dependência sensível em relação as
condições iniciais fornecidas no início da integração. Lorenz
notou que partindo de condições ligeiramente perturbadas,
após algum tempo de integração, as soluções podem ser completamente
diferentes, ele foi o primeiro cientista a perceber a importância
de tais fenômenos, que vieram a ser chamados "caóticos"
devido ao comportamento irregular que apresentavam. Sabe-se
que os modelos numéricos não conseguem reproduzir a enorme
diversidade de fenômenos que influenciam a evolução das condições
atmosféricas, o que seria suficiente para limitar o prazo
de previsão, entretanto, mesmo que os modelos fossem perfeitos,
os erros inerentes às observações, utilizadas no momento de
geração da condição inicial, poderiam levar a uma previsão
que não seria verificada depois de alguns dias.
A técnica de previsão de tempo por ensemble surgiu como uma
tentativa de aumentar o prazo de previsão e a previsibilidade
dos modelos dinâmicos. Em geral, supõe-se que os modelos sejam
perfeitos e, assim, considerando apenas a incerteza na condição
inicial, busca-se, através de alguma técnica específica, estimar
os erros associados às observações para criar um conjunto
de condições iniciais perturbadas. O conjunto de previsões
é obtido integrando-se o modelo a partir de cada uma destas
novas análises perturbadas. De forma ideal, um número ilimitado
de condições iniciais seriam necessárias para representar
todos estados atmosféricos possíveis, entretanto, isto seria
impraticável, pois para cada condição inicial corresponderia
uma rodada do modelo. Como a taxa de crescimento dos erros
depende do regime de circulação da atmosfera, da estação do
ano, e do domínio geográfico, é possível construir um número
limitado de perturbações “ótimas” que representem os modos
de crescimento mais rápido associados aos padrões atmosféricos
da condição inicial. A idéia é eliminar condições inicias
perturbadas que geram previsões muito semelhantes entre si
e, através de um número menor de integrações, tentar estimar
os cenários futuros mais prováveis associados à evolução dinâmico-caótica
da atmosfera. Os dois mecanismos mais conhecidos de geração
das condições iniciais perturbadas são o "Breeding of
Growing Modes" empregado no National Centers for Environmental
Prediction (NCEP), nos Estados Unidos, e o "Singular
Vectors" utilizado pelo European Centre for Medium-Range
Forecasts (ECMWF), na Europa. Embora utilizem metodologias
diferentes, ambas as técnicas buscam estimar os modos de crescimento
mais rápido associados aos erros na condição inicial. Ambos
os centros têm adquirido experiência em previsão por ensemble,
desenvolvido novos produtos e produzido um grande número de
trabalhos, demonstrando ser esta uma ferramenta complementar
muito útil para a previsão numérica de tempo, especialmente
de médio prazo.
O
sistema de previsão de tempo global por ensemble do Centro
de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) teve sua
origem no trabalho de dissertação de mestrado de Coutinho
(1999). Seu trabalho mostrou que a aplicação da previsão de
tempo global por ensemble ao modelo de circulação geral atmosférico
do CPTEC poderia trazer benefícios para a previsão de médio
prazo para diversas regiões do globo, especialmente para a
América do Sul, o que constitui um avanço significativo dentro
da meteorologia do Brasil. Assim, em outubro de 2001, o CPTEC
iniciou operacionalmente a previsão de tempo global por ensemble.
Geralmente,
a configuração adotada na implementação de um sistema de previsão
por ensemble é escolhida em função da infra-estrutura da instituição
que o emprega. Atualmente, o CPTEC conta com um supercomputador
NEC/SX4 com 8 processadores, além de uma ampla rede de servidoras
e estações de trabalho, que permitiu-nos implementar um sistema
com um modelo global de resolução T062L28 (aproximadamente
200x200 Km) e 15 membros, sendo um de controle (a partir da
condição inicial sem perturbações) e 14 a partir de análises
perturbadas. Este conjunto de previsões é realizado diariamente
a partir do horário 12Z, para um prazo de previsão de 168
horas (7 dias) e saídas a cada 12 horas.
2.
Método de perturbação da condição inicial
O
mecanismo utilizado para a geração das condições iniciais
perturbadas é baseado no método aplicado por Zhang e Krishnamurti
(1999) (daqui em diante referenciado como ZK1999) ao modelo
global da
Florida State University (FSU), nos Estados Unidos, e proposto inicialmente
para previsão de furacões. O método, denominado
EOF-based perturbation, foi desenvolvido
levando-se em conta o fato de que durante os primeiros dias
de integração do modelo a perturbação cresce linearmente.
Resumidamente, o procedimento para geração das condições iniciais
perturbadas consiste das seguintes etapas:
a)
adicionar pequenas perturbações randômicas, comparáveis aos
erros de previsão, a análise de controle (não perturbada);
b)
integrar o modelo por 36 horas (intervalo ótimo) utilizando
as análises perturbadas e de controle, com saídas a intervalos
fixos de 3 horas;
c)
subtrair a previsão de controle da previsão perturbada para
cada horário de saída, obtendo uma série temporal de diferenças
dos campos previstos;
d)
realizar uma análise de Funções Ortogonais Empíricas (EOF)
para a série temporal de diferenças sobre uma região de interesse,
obtendo os autovetores (modos) associados aos maiores autovalores,
que são as perturbações ótimas;
e)
reescalonar as perturbações ótimas de forma que o desvio padrão
destas perturbações sejam da ordem das perturbações iniciais;
f)
construir um conjunto de estados iniciais adicionando e subtraindo
estas perturbações ótimas, após o reescalonamento, à análise
de controle.
Para
a previsão de furacões, ZK1999 propuseram perturbações em
relação à posição inicial do furacão e o cálculo das EOFs
em uma região vizinha ao furacão, já que lhes interessava
a evolução de um evento severo específico. Entretanto, do
ponto de vista de previsão do padrão da circulação geral da
atmosfera, a aplicação de perturbações na posição de algum
evento específico não parece ser razoável. Outras duas modificações
foram acrescentadas ao método, a primeira, em relação a região
perturbada que originalmente foi confinada a regiões vizinhas
ao furacão. Para previsão global, Coutinho (1999) obteve que
tentativas preliminares de confinar as perturbações em latitude
e longitude, por exemplo, uma área sobre a América do Sul,
não indicou bons resultados, pois, esse isolamento, eliminava
o tratamento do crescimento das perturbações em regiões de
influência relevante no desenvolvimento dos sistemas sinóticos.
Seus resultados mostraram que a utilização de uma região mais
estendida (45 S a 30 N e 0 E a 360 E) apresentava melhores
resultados. A segunda modificação refere-se à intensidade
das perturbações iniciais e de reescalonamento das perturbações
ótimas. ZK1999 consideraram razoável que as perturbações iniciais
fossem da ordem dos erros de previsão de 3 horas (3 m/s para
o vento e de 0.6 K para a temperatura) e, para o reescalonamento
das perturbações ótimas, consideraram que o desvio padrão
destas perturbações, em relação à média total (horizontal
e vertical), deviam ser de 1.5 m/s para o vento e 0.7 K para
a temperatura. Como a região de perturbação foi alterada,
valores mais adequados para as perturbações iniciais e para
o reescalonamento foram testados. Valores um pouco maiores,
5.0 m/s para o vento e 1.5 K para a temperatura, obtidos do
trabalho de Daley e Mayer (1986) para as perturbações iniciais
e para o reescalonamento parecem produzir melhores resultados
do que os sugeridos por ZK1999.
3.
Cálculo das EOFs
Para realizar a análise de componentes principais, monta-se
uma matriz da série temporal de diferenças de temperatura
dispondo em cada coluna, sucessivamente, uma das matrizes
de diferenças obtidas a cada 3 horas, a partir de 6 horas
de integração do modelo. Assim, cada coluna representa uma
matriz tridimensional (latitude x longitude x nível) disposta
verticalmente. Desse modo, o conjunto total de dados de temperatura
é expresso por uma matriz retangular
de dimensão S x T, onde T = 11
(número de saídas em 36 horas) e S = N x M x L, com N = número
de pontos de latitude, M = número de pontos de longitude e
L = número de níveis.
A
matriz de covariância é definida por:

(1)
onde
é a matriz transposta de
. A matriz
é, claramente, uma matriz simétrica,
logo, tem T autovalores reais
e autovetores ortonormais
, cada um satisfazendo
(2) e
a condição de ortonormalidade
(3) onde
é a função delta de Kronecker.
Os
autovalores de
são ordenados do maior para o
menor, obtendo-se uma correspondente ordem nos autovetores
associados (ordem decrescente da variância explicada por cada
autovetor). A matriz
é representada na base
dos autovetores
como
, onde a matriz
consiste dos vetores-linha
, normalmente chamados de funções
ortogonais empíricas (EOFs). A matriz
contém os coeficientes para os
diferentes autovetores nos diferentes tempos e é função somente
do tempo.
é chamada de matriz das componentes
principais. Os modos de crescimento mais rápido são facilmente
selecionados através da evolução temporal dos coeficientes
dos autovetores. Os modos cujos coeficientes aumentam rapidamente
com o tempo serão selecionados como os mais instáveis.
Para
a série temporal de diferenças do vento, o procedimento é
análogo, mas considerando o vento como um vetor, através da
composição de suas componentes zonal u e meridional v em um
número complexo u + iv (representado por um vetor no plano
dos Complexos) (Legler, 1983). Assim, para o cálculo da matriz
, toma-se a matriz complexa conjugada
transposta
da matriz
formada pelos vetores de diferenças
do vento, obtendo-se:
(4) de
forma que
é uma matriz hermitiana, com autovalores
reais e autovetores ortogonais.
4. Produtos da previsão
por ensemble
A previsão de tempo por ensemble produz grande quantidade
de informações e tem sido um desafio para os centros meteorológicos
que implantaram este sistema condensar essas informações e
extrair delas as características mais importantes para o previsor,
ou para o usuário final. A forma mais simples de apresentar
estas informações seria plotar todas as previsões dos membros
em uma única página, entretanto, isto poderia causar interpretações
subjetivas e discussões improdutivas, além disso, à medida
que o número de membros aumentasse seria difícil ter uma visão
global de todos os padrões previstos. Esforços significativos
têm sido dedicados ao desenvolvimento de produtos que sintetizem
as informações do ensemble e que auxiliem a interpretação
dos previsores.
Os
produtos mais comuns obtidos a partir da previsão de tempo
por ensemble serão apresentados e discutidos a seguir, eles
fazem parte da rotina operacional de previsão de tempo do
CPTEC e estão sendo disponibilizados via internet, na home-page
do CPTEC.
a)
Ensemble médio
É
a forma mais condensada de obter informações da previsão por
ensemble, consiste em calcular a média das previsões considerando-se
que todos os membros sejam igualmente prováveis de ocorrerem,
desta forma, não se atribui peso a nenhuma previsão específica.
O cálculo pode ser feito para cada ponto de grade j como segue:
(5) onde
N é o número de membros do ensemble (inclusive o de controle)
e F
ij são as previsões de cada membro.
O
ensemble médio pode ser considerado, numa aproximação determinística,
como a melhor estimativa da atmosfera futura, especialmente
para previsão de médio prazo. Toth e Kalnay (1993), obtiveram
que as correlações de anomalias do ensemble médio do NCEP
para o geopotencial (500 hPa) eram 2% (3%) maiores sobre o
Hemisfério Norte (Hemisfério Sul) do que a previsão determinística
de 5 dias, numa resolução T062. No ECMWF, Molteni
et al (1996) analisaram o skill do ensemble
médio sobre o Hemisfério Norte para o campo de altura geopotencial
em 500 hPa durante os invernos de 1992 e 1993, e primavera,
verão e outono de 1993. Eles obtiveram que o erro médio quadrático
(emq), médio de cada estação, apresentou melhora em relação
à previsão de controle a partir de 4 a 5 dias. A Figura 1
apresenta uma comparação entre o erro médio quadrático da
previsão determinística em relação ao do ensemble médio, obtido
por Coutinho (1999), para a altura geopotencial em 500 hPa
durante um episódio de ciclogênese que ocorreu próximo à costa
sul do Brasil em abril de 1998. Nota-se que o emq do ensemble
médio é menor do que o emq da previsão de controle para todos
os prazos de previsão.
Figura
1 – Erro médio quadrático (emq) da Altura Geopotencial
em 500 hpa, região da América do Sul, para a previsão determinística
e para o ensemble médio. Previsão a partir de 27/04/1998 00Z.
b)
Espalhamento do Ensemble
Uma informação muito significativa que pode ser obtida da
previsão por ensemble está relacionada a capacidade de estimar
a incerteza associada a determinado padrão atmosférico previsto.
Trabalhos realizados por Buizza (1997) e Whitaker e Loughe
(1998) para os sistemas de previsão por ensemble do ECMWF
e do NCEP, respectivamente, mostraram haver determinada correlação
entre o espalhamento do ensemble e os erros das previsões.
A incerteza ou confiabilidade de uma previsão é avaliada em
função do espalhamento do conjunto de previsões, definido
como o desvio padrão das previsões em relação ao ensemble
médio (EM). Para regiões onde há menor espalhamento é atribuído
maior confiabilidade à previsão e, para regiões onde os membros
estejam afastados é atribuído menor confiabilidade. O espalhamento
do ensemble para cada ponto de grade j pode ser calculado
como segue:
(6) onde
N é o número de membros do ensemble e F
ij
e EM
j são as previsões de cada membro do ensemble
e a previsão do ensemble médio, respectivamente.
O
espalhamento do ensemble pode ser calculado para qualquer
variável desejada, geralmente, são plotados no mesmo gráfico
a previsão do ensemble médio e o espalhamento daquele campo,
como pode ser observado na Figura 2, que apresenta a previsão
de 5 dias para a altura geopotencial em 500 hPa. Através do
espalhamento pode-se avaliar geograficamente as regiões onde
há maior discordância entre os membros do ensemble, ou seja,
incerteza. Para este episódio, a Figura 2 sugere que o cavado
previsto a leste da América do Sul apresenta maior confiabilidade
do que a crista que se encontra a sudoeste deste cavado.
Figura 2 – Ensemble médio (contornos)
e espalhamento (cores) para a altura geopotencial em 500 hPa.
Previsão de 6 dias.
c)
Diagramas "Spaghetti"
Os
diagramas "Spaghetti" consistem, essencialmente,
em plotar em um único gráfico a previsão de alguns contornos
específicos dos diversos membros do ensemble, como apresentado
na Figura 3 para os contornos de 0 e 15 graus Celsius da temperatura
no nível de 850 hPa. Através destes diagramas pode-se fazer
uma espécie de análise de agrupamento gráfica para identificar
os cenários futuros mais prováveis, de acordo com o número
de previsões que apontam naquela direção.
Figura
3 – Diagrama “Spaguetti” para os contornos de 15.0 e 0.0 graus
Celsius para região da América do Sul. Previsão de 5 dias.
d)
Previsão de Probabilidades
A
previsão de probabilidades é um dos produtos de grande aplicabilidade
que pode ser gerado a partir da previsão de tempo por ensemble.
Dado um limiar pré-estabelicido, suponhamos precipitação acumulada
em 24 horas acima de 1 mm, o que praticamente representa a possibilidade
ou não de chuva, pode-se estimar, espacialmente, quais são as
regiões mais prováveis de ocorrência de precipitação nas últimas
24 horas de previsão do modelo. Para regiões que apontam probabilidades
acima de 65 %, para um limiar de 1 mm, as condições atmosféricas
indicam possibilidade de ocorrência de precipitação, embora não
se possa afirmar nada a respeito da intensidade, apenas que deve
haver precipitação. Por outro lado, regiões que apresentam probabilidades
abaixo de 35 %, para o limiar de 1 mm, as condições atmosféricas
indicam que existem pouquíssimas chances de ocorrência de algum
tipo de precipitação. Para tentar discriminar qual é a categoria
de precipitação prevista para determinada região, pode-se classificar
a quantidade de precipitação em categorias conforme apresentado
na Tabela 1 e, em seguida, calcular as probabilidades para os
demais limiares, plotando os gráficos em uma única figura.
Tabela
1 – Classificação das precipitações acumuladas
em 24 horas em categorias e seus respectivos limiares.
| Categorias |
Limiares
(mm) |
| Chuva/não
chuva |
1.0 |
| Fraca |
5.0 |
| Moderada |
10.0 |
| Forte |
10.0 |
O
cálculo das probabilidades é realizado considerando-se que
todos os membros do ensemble são equiprováveis, ou seja, não
se atribui nenhuma espécie de peso para os membros. Desta
forma, a probabilidade de ocorrência de um evento, para cada
ponto de grade, pode ser calculado de acordo com a expressão:
(7)onde
N é o número de membros e O
ij é 1 se
o evento é previsto, e 0 se o evento não é previsto. O evento
pode ser, por exemplo, precipitação acima de um dos limiares
da tabela 1.
Outros
parâmetros, além da precipitação, poderiam ser utilizados
para o cálculo das probabilidades, tais como, altura geopotencial
em 500 hPa acima de 5500 m, temperatura do ar no nível de
850 hPa abaixo de 0 graus Celsius, intensidade do vento à
superfície acima de 10 m/s.
A
Figura 4 apresenta a previsão de probabilidades de precipitação
acumulada em 24 horas, válida para o dia 25/02/2002 às 12Z
(previsão de 120 horas). No canto superior esquerdo são apresentadas
as probabilidades de ocorrência de precipitação acima de 1mm,
ou seja, chuva ou não chuva. Mendonça (1999), observou que
o modelo global do CPTEC possui uma tendência a superestimar
o número de pontos onde efetivamente ocorre algum tipo de
precipitação, desta forma, é possível que os membros do ensemble
estejam superestimando as regiões de ocorrência de precipitação,
por isso, regiões que apresentam probabilidade acima de 65
% podem ser consideradas com possibilidades de ocorrência
de algum tipo de precipitação, por outro lado, probabilidades
abaixo de 65 % podem ser consideradas com poucas chances de
ocorrência de precipitação. Adicionalmente, nas regiões onde
as probabilidades são menores do que 35 % é provável que nenhuma
precipitação ocorra. Para os mapas de 5 e 10 mm (superior
direito e inferior esquerdo), pode-se considerar que probabilidades
acima de 65 % indicam grande possibilidade de ocorrência de
precipitações moderadas ou fortes, por outro lado, probabilidades
abaixo de 65 % indicam poucas chances de precipitação acima
de 5 e 10 mm. O mapa inferior esquerdo, limiar de 20 mm, representa
uma tentativa de prever as probabilidades de ocorrência de
chuvas intensas, entretanto, à medida que o limiar de precipitação
aumenta, o número de pontos onde se verificam chuvas acima
deste limar diminui, ou seja, o evento torna-se mais raro,
consequentemente, mais difícil de ser previsto pelo modelo.
Como foi observado por Mendonça (1999), o modelo global do
CPTEC apresenta tendência a subestimar o número de pontos
com chuvas intensas, por isso, as probabilidades para este
limiar diminuem drasticamente, assim, pode-se considerar que
regiões que apresentam probabilidades acima de 5 % têm, potencialmente,
chances de ocorrência de precipitação acima de 20 mm, o que
não necessariamente, indicam chuvas intensas, pois esta quantidade
corresponde ao acumulado em 24 horas.
Como
neste sistema de previsão por ensemble é utilizado um modelo
global, cuja resolução horizontal é de aproximadamente 200x200
Km, é prudente considerar que as probabilidades previstas
têm como origem a precipitação resultante dos padrões sinóticos
da atmosfera, por isso, não se descarta a possibilidade da
influência de fenômenos localizados, que podem determinar
a condição do tempo local.
Figura 4 – Previsão de probabilidades
para os limiares de precipitação da tabela 1. Previsão de
5 dias.
e)
Plumas de Probabilidades
A
previsão de probabilidades (ítem d) é construída de forma
a apresentar a distribuição espacial de probabilidades para
um determinado prazo de previsão, por exemplo, 24, 48 e
72 horas. Alternativamente, as plumas de probabilidades
apresentam a evolução temporal da distribuição de probabilidades
para um determinado ponto de grade do modelo. A Figura 5
apresenta um exemplo para a cidade de São Paulo. Como pode
ser observado, para o campo de precipitação não são calculadas
as probabilidades, neste caso, são plotados os valores de
precipitação, em milímetros por hora, previstos pelos membros
do ensemble. Para os demais campos, novamente, a probabilidade
é calculada considerando-se que as previsões dos membros
do ensemble sejam igualmente prováveis.
A
probabilidade, para cada passo de tempo, é calculada pela razão
entre o número de membros que prevêem, por exemplo, temperatura
em torno de 15.0ºC, dentro de um intervalo de 1.0 ºC,
pelo número de membros total. Considerar um intervalo de 1.0 ºC,
significa que todos os membros que previram, em um determinado
passo de tempo, temperaturas entre 14.5 e 15.4ºC estão classificados
em um mesmo grupo, de 15.0ºC.
A
escolha dos intervalos deve ser adequada para cada variável,
ou seja, deve ser escolhido de forma que a variação de metade
deste intervalo, para cima ou para baixo, em torno de um
valor específico, não seja significativo. Tomemos como exemplo
a previsão de temperatura para o dia 25 de fevereiro, horário
00Z, da Figura 5. Pode-se verificar que foi previsto com
80 a 100 % de probabilidade que a temperatura esteja em
torno de 22.0
oC, ou seja, entre 21.5 e 22.4
oC. Analogamente, os valores mais prováveis dos
demais campos podem ser acessados a partir dos gráficos
subsequentes, lembrando que o intervalo, ou desvio, em torno
do valor obtido é de 3 % para a umidade relativa à superfície,
2.0 m/s para a intensidade do vento horizontal à superfície
e 3 hPa para a pressão à superfície.
Uma
informação importante que pode ser obtida das plumas de
probabilidade está relacionada à confiabilidade do evento
previsto. No caso da precipitação, onde são plotadas as
previsões de cada membro, podemos ver antes do dia 21 e
entre os dias 22 e 23 de fevereiro (Figura 5) que todos
os membros do ensemble prevêem um máximo de precipitação
aproximadamente no mesmo horário, embora haja alguma divergência
quanto à intensidade. Desta forma, pode-se atribuir maior
confiabilidade a esta previsão e considerar que há possibilidade
de chuvas intensas, uma vez que o período, entre o início
e o final da precipitação é razoavelmente curto. Entre os
dias 21 e 22 de fevereiro os membros do ensemble prevêem
precipitação razoável, entretanto, pode-se verificar que
não há concordância quanto ao horário das chuvas, visualmente,
podemos dividir as previsões em dois grupos, um que prevê
o máximo de precipitação no início da tarde e outro que
prevê o máximo de precipitação no início da noite. Nesse
caso, a confiabilidade quanto ao horário de ocorrência do
máximo de precipitação é menor, mas os membros concordam
que deve haver chuva entre o início da tarde e o final da
noite deste dia. Do dia 23 ao dia 25, apenas alguns membros
prevêem precipitação fraca, nesse caso, é provável que não
ocorra precipitação durante este período. Entre os dias
25 e 26, a previsão indica possibilidade de precipitação
de intensidade fraca. A partir do dia 26, começa haver grande
dispersão entre os membros, o que indica baixa confiabilidade,
entretanto, os membros concordam quanto à possibilidade
de precipitação até mesmo de chuvas intensas, previstas
por alguns membros.
Figura
5 – Plumas de probabilidades para o ponto de grade onde
está situada a cidade de São Paulo. Previsão a partir do dia
20/02/2002 12Z. De cima para baixo: o primeiro gráfico apresenta
a previsão dos membros do ensemble para a precipitação. Em
seguida, as plumas de probabilidades: segundo gráfico para
a temperatura à superfície; terceiro gráfico para a umidade
relativa à superfície; no quarto gráfico a intensidade do
vento à superfície e no quinto gráfico a pressão à superfície.
A curva sólida preta indica a previsão de controle, e as linhas
pontilhadas verticais indicam o horário 00Z.
Para
os demais campos, onde são apresentadas a previsão de controle
(linha sólida) e as probabilidades (cores), se considerarmos
um momento específico, a soma das probabilidades de cada uma
das variáveis deve totalizar 100 %. Desta forma, os horários
que apresentam maior dispersão entre os membros, ou menor
confiabilidade, estão relacionados aos momentos em que há
maiores regiões com probabilidades entre 1 e 20 %, ou seja,
regiões onde a cor azul se destaca em relação às demais. Um
exemplo deste comportamento pode ser visto na figura 5 na
acentuada queda da umidade relativa prevista para o período
diurno entre os dias 23 e 24 de fevereiro. Nesse caso, os
membros concordam quanto à diminuição da umidade, entretanto,
há divergências quanto à magnitude desta diminuição, é previsto
que a umidade tenha um mínimo entre 40 e 75 %, embora seja
mais provável que ela esteja em torno de 55 % na tarde do
dia 23. Embora seja mais provável que o mínimo de umidade
relativa esteja em torno 55 %, a confiabilidade desta previsão
é pequena, pois este valor é previsto apenas com cerca de
20 a 40 % de chances de ocorrência.
5.
Discussão
Desde
que foram criados os primeiros modelos dinâmicos para a previsão
numérica do tempo sabia-se que o índice de acerto destas previsões
era limitado, entretanto, as falhas dos modelos geralmente
eram associadas ao tratamento inadequado dos processos físicos
da atmosfera. Certamente estes erros seriam capazes de limitar
o prazo da previsão, entretanto, Lorenz observou que o conjunto
de equações que descrevem os movimentos atmosféricos apresenta
dependência sensível em relação à condição inicial, ou seja,
pequenos erros nas condições iniciais podem ocasionar grandes
erros em uma previsão futura mesmo que os modelos fossem perfeitos.
Esta descoberta mostrou que não basta melhorar a descrição
dos fenômenos atmosféricos pelos modelos, mas é preciso levar
em conta a incerteza associada as observações utilizadas na
geração da condição inicial.
Ao
longo das últimas décadas foram desenvolvidos e testados diversos
mecanismos de geração de condições iniciais perturbadas com
a finalidade de estimar os erros inerentes às condições iniciais
convencionais. Os mecanismos que empregam um tratamento dinâmico-estatístico
para estimar os modos de crescimento mais rápido das perturbações
iniciais, durante a integração do modelo, têm mostrado maior
eficiência para geração de condições iniciais perturbadas.
Os métodos mais conhecidos são aqueles empregados pelo NCEP
e pelo ECMWF. No CPTEC, adotou-se um mecanismo que foi desenvolvido
por ZK1999 e primeiramente utilizado para a previsão de trajetória
de furacões, chamado "EOF-based perturbations",
e adaptado para previsão de tempo global por Coutinho (1999).
Extrair
da previsão de tempo por ensemble as informações mais significativas
e produtos que sejam aplicáveis de forma operacional tem sido
um grande desafio para pesquisadores e usuários deste sistema.
Diversos produtos, tais como os descritos no item 4, foram
desenvolvidos para auxiliar os previsores e os tomadores de
decisões, entretanto, o intercâmbio de informações, bem como,
avaliações destes produtos podem ser de grande valia para
o desenvolvimento de novos produtos e melhoria do sistema
como um todo.
O sistema de previsão de tempo por ensemble do CPTEC, iniciado
operacionalmente em outubro de 2001, busca fornecer a comunidade
meteorológica brasileira mais uma ferramenta no âmbito da
previsão numérica do tempo e representa uma tentativa de tratar
o sistema atmosférico mais adequadamente, ou seja, como um
sistema caótico.
6.
Referências bibliográficas
Buizza, R. Potential forecast skill of ensemble prediction and spread
and skill distributions of the ECMWF ensemble prediction system.
Mon. Wea. Rev., v. 125, p. 99-119, 1997.
Coutinho,
M. M. Previsão por conjuntos utilizando perturbações baseadas em
componentes principais. São José dos Campos, 1999. 136p. Dissertação
(Mestrado em Meteorologia) - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Daley,
R., Mayer, T. Estimates of Global Analysis Error from the
Global Weather Experiment Observational Network. Mon.
Wea. Rev., v. 114, p. 1642-1653, 1986.
Legler,
D. M. Empirical orthogonal function analysis of wind vectors
over the tropical pacific region., Bull.
Am. Meteorol. Soc., v. 64, n.3, p. 234-241, 1983.
Lorenz,
E. N. Deterministic non-periodic flow. J.
Atmos. Sci., v. 20, p. 130-141, 1963.
Lorenz,
E. N. A study of the predictability of a 28-variable atmospheric
model. Tellus, v. 17, p. 321-333, 1965.
Lorenz,
E. N. The predictability of a flow which possesses many scales
of motion. Tellus, v. 21, p. 289-307,1969.
Mendonça,
A.M. Desempenho do modelo global CPTEC/COLA durante episódios
de ZCAS, utilizando os esquemas de convecção profunda tipo
Kuo e Arakawa-Schubert Relaxada. São José dos Campos, 1999.
166 p. Dissertação (Mestrado em Meteorologia). Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais.
Molteni,
F., Buizza, R., Palmer, T.N., Petroliagis, T. The ECMWF ensemble
prediction system: Methodology and validation. Q.J.R. Meteorol. Soc., v. 122,
p. 73-119, 1996.
Toth,
Z., Kalnay, E. Ensemble forecasting at NMC: The generation
of perturbations. Bull. Am. Meteorol. Soc., v. 74, p. 2317-2330,
1993.
Whitaker,
J.S., Loughe, A.F. The relationship between ensemble spread
and ensemble mean skill. Mon.
Wea. Rev., v. 126, p. 3292-3302, 1993.
Zhang,
Z., Krishnamurti, T.N. A perturbation method for hurricane
ensemble predictions. Mon. Wea. Rev., v. 127, p. 447-469, 1999.